Precisamos tratar nossos monstros e a normalidade, a oportunidade de ver as pessoas como PESSOAS em primeiro lugar parece ser a melhor saída, sigamos nossa reabilitação social ao estilo de Halden fengsel.

Recentemente a presença LGBTQIA+ (1) vêm ocupando espaços, promovendo visibilidade não pela via do protesto ou da manifestação política, apenas pelo reflexo da normalidade. Em outras palavras, não se trata de uma ocupação em que a causa é protagonista, mas onde as pessoas simplesmente existem e envolvem-se com preocupações inerentes a qualquer pessoa e não inerentes a sua condição LGBTQIA+.

Essa ocupação a que me refiro – infelizmente – ainda não se reflete nas esferas de decisão, nas profissões mais privilegiadas ou bem posicionadas ou mesmo nos ambientes de formação. Ela está nas artes, desde desenhos infantis com SHE-RA, O Príncipe Dragão, O Vazio, Kipo, Os 3 Lá Embaixo: Contos de Arcádia, entre outros (2); até séries com 3%, sense8, Orange is the new black, Raio Negro, How to Get Away with Murder, entre muitas outras. É o princípio da normalidade na prática.

Em Halden, Noruega, há uma prisão de segurança máxima (Halden fengsel) que aplica o princípio da normalidade no intuito de ressocialização os presos. A ideia é bem simples, tratar o preso em um ambiente que simula a vida em sociedade para que ele possa aprender a se integrar, a conviver e a contribuir com o meio social esperado pela sociedade norueguesa. No intuito de tornar minha a analogia mais vívida, pormenorizo; em Halden fengsel, não há celas, sim quartos; há sofás confortáveis e os presos socializam com os guardas; há sessões de terapia; cursos profissionalizantes; trabalho remunerado e tantas atividades outras, que o preso acorda 7hs da manhã e só volta para o quarto a noite, após ter trabalho, estudado e feito suas comprar no supermercado da prisão com seu cartão de débito pagando com a remuneração por seu trabalho. O preso pode – claro – escolher não seguir essa rotina, mas nesse caso, permanecerá trancado em seu quarto individual (com televisão, frigobar e banheiro com água quente) o dia todo.

Isso Funciona?

De fato, funciona, a reincidência média na Noruega é de 70% (percentual de presos que voltam a cometer crimes após serem soltos), mas, em Halden fengsel, esse percentual flutua em valores menores de 30%.

Contudo, o papo aqui não é sobre sistema prisional, é sobre uma sociedade violenta que mata em média 1 pessoa LGBTQIA + a cada 26 horas; que mata 01 mulher a cada 2 horas; que mata 36 crianças e adolescentes assassinadas a cada 24 horas (3);

O papo aqui é sobre uma sociedade patriarcal que até 2005 normatizava no artigo 219 do código penal (CP) o crime de “Raptar mulher honesta, mediante violência, grave ameaça ou fraude, para fim libidinoso” (atenção para o ano em que esse artigo foi substituído pelo artigo 148 do CP e atenção para o fato de que se não fosse “mulher honesta” – seja lá o que isso possa significar em cada juízo individual – não seria crime).

Nossa sociedade encarcera o monstro que transforma pessoas em coisa, que instrumentaliza e valora vidas.

A MINHA mulher; Pra que serve um homem afeminado, uma mulher que parece homem; Aparelho excretor não reproduz; Só vão morrer idosos e pessoas que já possuem alguma doença. ” E por ai vai…

Transformamos o fenômeno social patológico em fenômeno social normal – para citar Durkheim. Em outras palavras, normalizamos um problema e problematizamos a normalidade. O politicamente correto – nos anos 90 – era sinônimo (para os jovens em seu inerente e indispensável papel de subversão e de contracultura) de “careta”, de conservador, de extrema civilidade; hoje, é sinônimo de “coitadismo”, de vitimização, de autopiedade. Pergunto, quando a extrema civilidade tornou-se autopiedade e o abrupto, o precipitado, os rompantes – por excelência – frutos da inexperiência, da imaturidade tornaram-se objeto de ostentação?

Para além da reflexão social, cada um de nós guarda resquícios de colonizado, de administrado, de oprimido por desigualdades e por rupturas abruptas de poder (Deodoro, Getúlio, Ditadura, Ai5, etc.) que se manifestam pela sede de “justiçamento”, JAMAIS confunda com justiça (4).

Somos prisioneiros do “homem velho”, da “sociedade velha”, nossa única saída – sempre ela – A ARTE, A CULTURA, O CONHECIMENTO; JAMAIS confunda conhecimento com informação (5).

A ocupação dos LGBTQIA+ pelo princípio da normalidade no ensinará a olhar – por exemplo – para um homem trans na função de policial militar da mesma forma que olha para um homem cis (6); para uma mulher trans exercendo a medicina da mesma forma que olhamos para mulheres cis; nos auxiliará em reflexões sobre respeito e maturidade social*.

*Explico:

Se você não consegue olhar para um gay ou uma lésbica sem fazer uma piada; ou para uma pessoa trans sem rir; isso diz mais sobre você do que sobre a pessoa objeto de seu riso.

O que eu posso fazer, se eu sinto raiva, desconforto, medo, vontade de rir ou de ridicularizar de pessoas LGBTQIA+? ”

A dica que dou é: use a palavra “PESSOA” sempre que for se referir a qualquer indivíduo que desperte em você instintos baixos.

Olhou para um mendigo e sentiu nojo? Não diga mendigo, diga PESSOA em situação de rua;

Pensou em presos, bandidos e sentiu ódio? Diga PESSOAS presas, PESSOAS que cometeram crimes;

Está diante de um deficiente e sentiu pena? Diga PESSOA com deficiência;

Ao seu lado há um homem fisicamente menor, aparentemente debilitado e vc sentiu vontade de subjugá-lo pela força? Refira-se a ele como PESSOA debilitada, PESSOA de estrutura física menor;

Vislumbrou uma mulher e só consegue pensar nela como um pedaço de carne para saciar sua libido, sua lascívia? Refira-se a ela como PESSOA mulher, PESSOA feminina;

Está diante de um LGBTQIA+ e sentiu repulsa, ou uma atração que você não aceita ou uma agressividade? Diga PESSOA gay; PESSOA trans; PESSOA bissexual, etc.

Talvez isso ajude você a evoluir na medida em que oferece a mesma dignidade de que necessita.

Precisamos tratar nossos monstros e a normalidade, a oportunidade de ver as pessoas como PESSOAS em primeiro lugar parece ser a melhor saída, sigamos nossa reabilitação social ao estilo de Halden fengsel.


(1) O que significa LGBTQIA + e porque respeitar a sigla?

A identificação das pessoas por meio dessa sigla tem um significado de pertencimento e isso é muito importante para o ser humano (pertencer a algo), notadamente quando você está inserido em uma minoria, eis – em minha opinião o motivo de respeitar a sigla, pq significa respeitar pessoas que buscam o direito de ser o que são.

(2) Pensei em comentar um pouco sobre os desenhos SHE-RA, O Príncipe Dragão, O Vazio, Kipo, Os 3 Lá Embaixo: Contos de Arcádia da Netflix, mas o texto ficaria muito grande, farei isso em outras oportunidades, por enquanto, acesse a plataforma Netflix e conheça essas produções

(3) Média 1 pessoa LGBTQA + a cada 26 horas;

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/04/23/brasil-registra-329-mortes-de-lgbt-em-2019-diz-pesquisa.htm

01 mulher assassinada a cada 2 horas;

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/03/08/no-brasil-uma-mulher-e-morta-a-cada-duas-horas-vitima-da-violencia.ghtml

32 crianças de adolescentes morrem assassinadas por dia no Brasil

https://www.unicef.org/brazil/homicidios-de-criancas-e-adolescentes#:~:text=No%20Brasil%2C%20todos%20os%20dias,crian%C3%A7as%20e%20adolescentes%20morrem%20assassinados.

01 Mulher morre a cada 2 horas no Brasil

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/03/08/no-brasil-uma-mulher-e-morta-a-cada-duas-horas-vitima-da-violencia.ghtml

(4) Justiçamento vs Justiça

Eis uma difícil tarefa abordar essas diferenças em poucas linhas, no intuito de ser breve:

Justiçamento é a aplicação de penas ao arrepio da lei, é a subtração de direitos e de garantias; justiça é – em alguma medida – no Estado democrático de direito, o respeito aos ritos legais, à constituição e aos princípios e aos processos democraticamente e legalmente estabelecidos.

(5) Conhecimento vs informação

Informação qualquer pessoa alfabetizada pode acessar em qualquer buscador; Conhecimento é a habilidade de operar a informação, é o produto de densidade e aprofundamento da experiência e da diversidade empírica e teórica.

(6) um homem e mulher cis vs Homem e Mulher trans

Em breves palavras:

O “Cis” é abreviação de cisgênero

Pessoa Cis é a pessoa que nasceu em determinado gênero e se identifica com ele;

“Trans” é abreviação de transgenero

Pessoa trans é a pessoa que têm uma identidade de gênero que difere do sexo com que nasceu.

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